O Judô é uma arte marcial que foi criada pelo professor de Educação Física Jigoro Kano no ano de 1882, no Japão. Sua finalidade é desenvolver o indivíduo de maneira física, mental e espiritual, trazendo também conceitos de defesa pessoal. Chegou ao Brasil em 1922 e desde então o esporte vem sendo praticado em todo país.

No Rio de Janeiro, mais especificamente na Baixada Fluminense, o judô faz parte da rotina de quem se dedica. Localizado em Duque de Caxias, o Instituto Olímpico Vila Operária foi fundado em 2010 e oficializado em 2014 a partir do trabalho social implementado pelo Professor Denílson Germano em parceria com o Pr. Zulimar Barcelos em 2008. O Instituto Olímpico não tem fins lucrativos e atua de forma gratuita, o professor/instrutor Fernando Lourenço é quem mantém as aulas de Judô no Instituto como também a equipe para competições.

PALAVRAS DE UM SENSEI


Foto: Reprodução/Facebook

“Me chamo Fernando Lourenço, tenho 27 anos e sou morador do centro de Duque de Caxias.  Sou formado em Direito e Faixa Preta de Judô – 2° Dan. Trabalho e vivo o Judô. Durante o dia trabalho em diversas escolas de Duque de Caxias e após às 18h início o trabalho junto com o Professor Denílson Germano no Instituto. Conheci o trabalho através de atletas dele que foram fazer um treinamento na academia onde eu treinava. Em 2011 me transferi para a equipe de Judô dele, na época “Judô Leão de Judá” e além de treinar comecei a colaborar nos treinamentos. Gosto muito do meu trabalho, principalmente no trabalho com os atletas de judô, voltado para as competições. O Instituto, através do Professor Denílson, me deu a oportunidade de atuar e aprender muito sobre esse mundo. Oportunidade que dificilmente teria no RJ e principalmente em Duque de Caxias onde a grande maioria dos profissionais não tem interesse nesse segmento competitivo e fazem críticas sobre quem o faz. O instituto para muitos é uma fuga da realidade. Uma oportunidade de vivenciar igualdade, respeito, superação e outros valores que o judô exige para que o aluno seja bem-sucedido. Ao longo dos anos conseguimos mudar alguns destinos, é claro que não ganhamos todas as lutas contra as “facilidades” (digamos assim) que a vida em uma comunidade com tráfico de drogas oferece, mas não temos dúvidas que o trabalho funciona nesse sentido e também na parte esportiva. Temos alunos das mais diversas realidades integrando o mesmo treinamento, lá as oportunidades do filho único de família bem estruturada são as mesmas do mais novo de 6 irmãos de mãe solteira.Tentamos ajudar as famílias que necessitam da melhor maneira possível, identificando as carências e conhecendo a história. Além da parte social, a parte esportiva tem excelentes resultados e motiva os mais novos a seguir nesse caminho. Atletas do Instituto já viajaram pelo Brasil e até fora compondo as equipes do RJ. Temos diversos Campeões Brasileiros, estaduais e inclusive Sul-americano. Para isso foi preciso passar por seletivas estaduais e nossos atletas vão muito bem. O trabalho precisa de parceiros para ser mantido. ”

A VIVÊNCIA E O PROFISSIONALISMO DE UM JUDOCA

O Judô faz com que o atleta sonhe em ser um campeão, com isso cada um se esforça para ter um bom desenvolvimento no esporte e isso pode até mudar o dia-a-dia desses atletas.  A oportunidade é um fator primordial para o crescimento qualitativo do ser humano, independente da atividade que ele exerça. O Judô também contribui, sendo base, refúgio e apoio para quem se dedica e pretende viver o esporte.

Foto: Reprodução/Facebook

“Meu nome é Matheus Guimarães, tenho 17 anos, moro em Nova Campinas Duque de Caxias, sou faixa Verde de Judô e Azul de Jiu-Jitsu (2° grau). Treino a cerca de 5 anos, mas conheci o Instituto Olímpico da Vila Operária, no final de 2017 através do meu professor de judô aqui de Nova Campinas, me federei por lá e comecei a competir pelo Instituto (mais conhecido como Time Leão). Desde então minha evolução no esporte é algo notório, conquistando mais de 10 ouros seguidos, dentre eles o que mais marcou foi o Campeonato Carioca onde conquistei três medalhas de ouro lutando as classes sub 18 (até 17 anos), sub 21 e sênior (até 30 anos). Também fui vice-campeão da Copa Do Brasil de Ligas 2018, em Vitória – ES. Posso dizer que o instituto é uma fábrica de sonhos, o trabalho que os senseis Fernando e Denílson fazem é incrível, e os atletas incríveis também, já treinei com mais de 15 professores e nunca vi um trabalho tão bem feito igual no Instituto. Conseguem manter o instituto com atletas de Nova Geração a Alto Rendimento gratuitamente. O judô me tirou das ruas, drogas e outras coisas e me deu uma nova oportunidade melhor de vida, hoje participo de competições mensalmente, estaduais e nacionais, como a Seletiva Nacional para Seleção de Base e a Taça Brasil Juniores. Não morava perto do instituto, era cerca de 18km, pegava ônibus para ir treinar e andava uns 15 minutos até chegar lá, ia sozinho a maioria das vezes, só terça e quinta tinha companhia, mas treinava de segunda a quinta, ou segunda a sábado. Se outros jovens tivessem a oportunidade de treinar lá seria incrível pois o Instituto não é apenas transformador de atletas, é transformador de vidas! Transformou a minha e de muita gente.  Através do judô, consegui bolsa escolar para estudar e lutar pelo Colégio Loide Martha, onde me sagrei campeão do 37° Intercolegial, e 3° lugar nas equipes. Atualmente me transferi para o Clube de Regatas do Flamengo, fazendo uma semana de testes com a comissão técnica, consegui meu lugar no time. A distância percorrida é bem maior (47km). Porém a estrutura que tenho no clube é bem maior, qualidade de treino, acompanhamento de profissionais médicos e etc. A oportunidade de dividir o dojo com atletas e professores olímpicos é incrível, como por exemplo a Sarah Menezes (campeã em Londres 2012 entrando para a história como primeira mulher a ganhar um ouro olímpico na modalidade) e Rosicleia Campos (atual técnica da seleção brasileira e participação em 2 olimpíadas). ”

A MULHER NO JUDÔ

As mulheres ganharam força e autonomia também no esporte. Com muita garra conseguiram conquistar seu espaço depois de anos através da prática de esportes que, antigamente, só eram permitidos para homens. Existem mulheres que vivem do esporte, vivem dessa arte marcial, e o livro  “Mulheres no Tatame: O Judô Feminino do Brasil”, das autoras Gabriela Conceição de Souza e Ludmila Mourão, descreve um pouco sobre o assunto. O Instituto abre portas para mulheres que sonham em se tornar uma campeã e a atleta Andressa Fernandes faz parte desse time.


Foto: Reprodução/Flash Sport / FJERJ – Judô Rio

Meu nome é Andressa Fernandes, tenho 16 anos, moro em Duque de Caxias, Baixada Fluminense e sou estudante no ensino médio. Eu conheci o instituto quando eu tinha 11 anos.  Treinava judô na escola e a minha sensei me levou para o instituto logo após observar que eu tinha potencial, a minha relação com o instituto é uma das melhores e voltada totalmente para as competições estaduais e nacionais, treino no instituto a uns 4 anos e sou faixa Roxa, o momento que mais me marcou no judô foi o campeonato Brasileiro Regional 2015, foi a primeira vez que eu estava indo disputar uma competição nacional e eu fui campeã porém a ficha só caiu minutos depois que eu estava com a medalha de ouro no pescoço. Eu participo de todos os campeonatos estaduais e na maioria dos nacionais eu também estou participando. Na verdade, os campeonatos nacionais são conquistados através de seletivas estaduais, sendo campeã na seletiva conquisto a vaga na competição nacional em outro estado. Comecei no esporte por ser imperativa e ter muita energia, mas não ter como gastar, sempre fui apaixonada por luta e o incentivo sempre veio desde nova pois meu pai praticava Jiu-Jitsu. O instituto hoje é como um refúgio, minha segunda casa, eu me sinto tão bem lá que às vezes até esqueço do mundo. O instituto me deu disciplina e controle, eu aprendi a controlar a minha raiva e estresse através do judô e o instituto foi fundamental para isso, sempre fui uma criança e uma adolescente muito explosiva. O judô hoje é visto para o lado feminino, porém, ainda há quem diga que judô não é esporte para mulheres. Eu já sofri muito por lutar ou até mesmo por me dedicar muito e as pessoas não entenderem, por ser mais forte que a maioria dos meninos e meninas. Me sinto muito à vontade no tatame, não sei se é porque todos que estão ali a minha volta me entendem ou são como eu, ou simplesmente porque eu gosto de lutar e está ali. Acho que jovens deveriam conhecer e fazer parte do instituto, esporte faz muito bem a saúde e o instituto só querem tornar sonhos possíveis. ”

Matéria produzida por Letícia Mello, aluna do 7° período de Jornalismo, com supervisão de Leandro Lacerda.

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