Mais que dor física, o aborto deixa sequelas psicológicas

Muitas mulheres são surpreendidas por uma gravidez indesejada durante a vida e optam por fazer um aborto. Os motivos variam, na maioria dos casos elas não têm apoio da família e nem estabilidade financeira para criar e manter uma criança. O fato é que a maior parte delas acaba se sentido culpada para sempre.

Complicado e doloroso, o aborto pode causar mais do que sequelas no corpo, como a perda do útero. Inúmeras vezes, o procedimento desencadeia outro problema de saúde: o de ordem emocional. Angústia e transtornos mentais são, de acordo com especialistas, marcas cravadas na alma que podem surgir de imediato ou anos após.

O preconceito da sociedade faz com o que o desenvolvimento desses males dispare, pela culpa de ter cometido um crime segundo as leis brasileiras e pelas questões religiosas. Diante da situação, muitas mulheres se fecham no silêncio, atitude considerada pelos especialistas, perigosa para a saúde mental. Para a psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello, em entrevista ao Jornal de Minas Gerais, “a conotação estigmatizante da ilegalidade do aborto coloca a mulher na condição de ré, provocando sentimento de culpa, muitas vezes irreversível, levando a uma auto condenação sem apelo”.

QUAIS SÃO OS TIPOS DE ABORTO?

Aborto espontâneo: é aquele que acontece sem a vontade da mulher. Pode acontecer por uma série de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Os motivos podem variar de esforço físico excessivo a má-formações no feto, ou até mesmo grandes níveis de stress. Estima-se que em 25% das gestações acontece o aborto espontâneo, normalmente por má formação genética do embrião.

Aborto induzido seguro: é aquele induzido pelo uso de remédios abortivos ou por métodos cirúrgicos – curetagem, dilatação, aspiração – com o devido cuidado médico. É considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma forma segura de abortar quando é realizado nas circunstâncias por eles indicadas: feito por médicos ou médicas experientes e com os recursos materiais necessários para o procedimento.

Aborto induzido não seguro: é aquele feito pela própria mulher, com agulhas de tricô, cabides de ferro ou qualquer ferramenta em que ela, num ato de desespero, tentará realizar o aborto. Podem ser consideradas formas perigosas de realizar esse procedimento também quando se tomam remédios abortivos sem orientação médica ou de origem duvidosa; e, também, quando ele é realizado em clínicas clandestinas – muitas vezes com profissionais sem preparo e/ou com materiais e medicamentos defeituosos.

A pesquisa “Aborto provocado: uma vivência e significado. Um estudo fundamentado na fenomenologia”, realizada com 120 mulheres da periferia de São Paulo que sofreram aborto, promovida pela psicóloga Cristina Mendes Gigliotti Borsari, conclui que tanto as mulheres que sofrem um aborto espontâneo quanto as que se submetem ao procedimento ilegal apresentam o discurso de culpa, resultando na dor física e psicológica. De acordo com o estudo, além difícil do drama interno, da culpa e da responsabilidade, às mulheres que interrompem a gravidez não encontram respaldo de saúde mental imediato no Sistema Único de Saúde.

O peso do preconceito

“O preconceito enfrentado por mulheres que abortam é um dos maiores fardos carregados. Primeiro porque há diferenças entre elas, de classe econômica, nível de informação, escolaridade. Dentro disso, há aquelas com sensibilidade maior ou menor diante de uma situação traumatizante. E há um agravamento, que é o julgamento do outro. Há dois tipos de aborto no Brasil: o da classe média e o da popular. As que têm menos condições fazem procedimentos piores, e quando têm complicações, vão passar por preconceito dentro do Sistema Único de Saúde, como, inclusive, de médicos que não querem atendê-las. Elas sofrem por não terem apoio nenhum, nem da classe médica, nem do Estado, e pelo fato de estarem sozinhas, enfrentando um preconceito milenar. Apesar das diferenças de classe, qualquer mulher que tenha interrompido uma gestação terá a fase de luto, de melancolia e de depressão, no mínimo. ” – Palavras da psicóloga clínica e conselheira do Conselho Federal de Psicologia, Roseli Goffman

Para a psicóloga Helena Pacheco, o medo de sofrer com o preconceito faz com que muitas mulheres sofram caladas quando se trata de aborto. “Nossa sociedade ainda é muito preconceituosa com mulheres que fizeram aborto”, lamenta. A psicóloga já atende há mais de vinte anos e nesse tempo já perdeu as contas de quantas mulheres a procuraram por se sentirem culpadas. “Não há um tempo exato para essas mulheres se recuperarem, pois cada uma reage de uma forma. Tenho pacientes que se recuperaram em 3 meses. Outras levam anos”, explica.

Quem são as mulheres que abortam  

Interromper a gravidez é uma prática antiga e feita por mulheres de diferentes classes sociais e etnias. De acordo com a Pesquisa Nacional de Aborto feita pela Universidade de Brasília em 2010, a maioria das mulheres que abortam são casadas, tem filhos, religião, pertence a todas as classes sociais e costuma carregar sozinha o peso de sua decisão. Como o caso da jovem Mariana de 19 anos, uma menina branca de família de classe média que foi levada a tomar tal atitude por conta do conservadorismo excessivo por parte de seus pais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 milhão de mulheres no Brasil se submetem a abortos clandestinos anualmente – a cada dois dias uma mulher morre no país, vítima do procedimento. Outro dado preocupante, também vindo da Pesquisa Nacional de Aborto, demonstra que mais de uma em cada cinco mulheres entre 18 e 39 anos de idade já recorreu a um aborto na vida.

É preciso atentar para o fato de que as estatísticas em relação ao aborto não correspondem a um número real, já que algumas mulheres fazem o procedimento com médicos em clínicas clandestinas e são medicadas por lá mesmo. Fica claro aqui que, a classe social de quem aborta  influencia nos números, o aborto é questão de saúde pública  e embora feito por mulheres de todas as classes, são as das classes mais baixas que sofrem com a prática, como mostra diversos estudos.

Um estudo da Organização Mundial da Saúde concluiu que países com leis que proíbem o aborto têm taxas acima daqueles locais onde a prática é legalizada. Nos locais em que é autorizada, ela foi acompanhada por estratégias de planejamento familiar e acesso à saúde que levaram a uma queda na quantidade de abortos realizados. Na França, por exemplo, a prática foi legalizada em 1975 e, desde então, o número de abortos só caiu. Segundo estatísticas oficiais, há menos de 1 morte por ano no país em consequência da prática do aborto.

X, de 19 anos e de família católica se viu desesperada quando descobriu que estava grávida de um rapaz com quem havia terminado a pouco tempo. Ela não podia contar com ninguém, sozinha planejou tudo e recorreu a uma clínica clandestina. “Fui criada em uma família muito religiosa, avós católicos, pais católicos e eu consequentemente sou católica. Respeito a igreja, vou a missa, porém discordo de alguns pontos. Fui criada para me guardar até o casamento, eu realmente tinha esse objetivo, porque acho bonito se entregar a um único homem. Mas aos 17 anos engravidei do meu namorado, eu não sabia o que fazer, minha família jamais poderia sonhar que eu não era mais virgem, muito menos que eu estava grávida, seria uma vergonha porque meus pais são conservadores ao extremo. Nem meu namorado sabia da gravidez. Terminamos 3 dias antes de descobrir que estava grávida. A minha cabeça entrou em parafusos, porque se minha família achava que sexo era um pecado mortal imagine um aborto? Eu decidi procurar uma clínica clandestina de aborto”, desabafa. X carregou o peso do aborto sozinha, mas teve o apoio da irmã assim que contou o ocorrido. “Eu me senti uma pessoa fria e sem coração, talvez porque eu tenha crescido sendo ensinada que aborto é crime e um pecado grave. Minha irmã se tornou minha melhor amiga depois disso, se não fosse a ajuda dela eu não teria suportado. Com a ajuda dela e de uma psicóloga eu consegui superar o trauma. Ainda hoje meus pais acreditam que eu sou virgem. Por várias vezes já tentei contar toda a história pra eles, mas seria uma decepção muito grande. Eles têm a mente muito fechada e isso complica as coisas.  Hoje eu não me vejo mais como uma “criminosa”.

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